Anytime, baby! 14 curiosidades sobre o F-14 Tomcat

O Grumman F-14 Tomcat é um dos caças mais famosos de todos os tempos. Eternizado no filme Top Gun – Ases Indomáveis (1986), o Tomcat foi o caça mais capaz da Marinha dos EUA (US Navy) até sua aposentadoria em 2006, quando foi totalmente substituído pelo Boeing F/A-18E/F Super Hornet.

Apesar de ser uma aeronave bastante conhecida e admirada por muitos fãs de aviação, o F-14 é também é cheio de curiosidades e peculiaridades. Aqui estão 14 fatos não muito conhecidos sobre o mais famoso caça da US Navy.

Não deixe de conferir uma galeria repleta de belas imagens do F-14 ao final do artigo! 

1 – Primeiro microprocessador do mundo

O Intel 4004 é conhecido como o primeiro microprocessador do mundo, mas na
verdade ele chegou em segundo lugar nessa corrida. O primeiro veio um pouco antes,
e estava em um dos computadores do F-14.

O MP944 foi desenvolvido entre 1968 e 1970 pela Garrett AiResearch, e era usado no Central Air Data Computer do Tomcat. Esse computador era responsável pelo controle das superfícies móveis do caça, incluindo o ângulo de enflechamento das asas, através de dados de altitude, velocidade, pressão e comandos do piloto.

Três protótipos do F-14 Tomcat em voo mostrando diferentes posições das asas. Foto: US Navy.

2 – Um par de motores bastante problemáticos

O Tomcat nasceu para substituir o F-111B, a versão naval do famoso caça-bombardeiro da Força Aérea dos EUA (USAF) e que não deu nada certo. Como a Marinha não tinha tanto tempo e dinheiro para gastar com o Tomcat (muito disso por conta da pressão do Departamento de Defesa), ele acabou herdando os motores Pratt & Whitney TF30 do F-111B e essa herança foi um dos maiores problemas durante toda a carreira do F-14A.

General Dynamics/Grumman F-111B. Foto: US Navy.

O TF30 tinha uma perigosa tendência de entrar em estol (apagar) durante manobras muito bruscas, algo que é mais do que constante em combate aéreo.

Os motores também poderiam apagar durante manobras de pouso embarcado, onde o piloto faz a aproximação aplicando diversos comandos rápidos no manche e nas manetes de potência, o que que foi letal para a Tenente Kara “Revlon” Hultgreen, uma das primeiras mulheres a pilotar o Tomcat.

Mecânicos instalando um motor Pratt & Whitney TF30-P-412A. Foto: Tracy L. Dias/US Navy.

O apagamento de um dos motores gerava empuxo assimétrico, fazendo com que o
avião entrasse em parafuso chato, parafuso esse que causava o apagamento do outro
motor. Logo, era quase impossível recuperar o controle do caça. 

Esse problema só foi resolvido quando o TF30 foi substituído pelos motores General Electric F110-GE-400, utilizados nas versões F-14B e F-14D.

3 – Potência de sobra

A troca de motores melhorou muito a vida de quem trabalhava com o Tomcat, fossem
tripulantes, mecânicos e técnicos. Os novos F110 trouxeram mais segurança, economia, autonomia e muita potência. Quase oito mil libras de potência a mais (em regime de pós-combustão) que os problemáticos TF30.

Era tanta potência que os F- 14B e F-14D eram proibidos de usar pós-combustão em decolagens de porta-aviões, pois o avião poderia ultrapassar o lançador da catapulta, causando danos enormes. As restrições também serviam para evitar perda de controle por empuxo assimétrico em caso de apagamento dos motores, mesmo quando operando em “terra firme”.

Um F-14B Tomcat do esquadrão VF-32 Fighting Swordsmen decolando do porta-aviões nuclear USS Harry S. Truman. Note que a aeronave não está usando a pós-combustão dos motores General Electric F110-GE-400. Class Danny Ewing Jr./US Navy.

4 – Grande e pesado

De pequeno ele não tinha nada. Com pouco mais de 19 metros de comprimento e
pesando quase 20 toneladas, o F-14 Tomcat foi o maior e mais pesado caça operado pela Marinha dos EUA.

Por conta do seu tamanho, o dorso da aeronave era chamado de “Quadra de Tênis” pelos tripulantes e mecânicos. 

Peso e tamanho também foram quesitos importantes para a desaprovação do F-111B, que era maior e mais pesado que o Tomcat. Quanto maior o peso e tamanho da aeronave, maior a dificuldade e perigo para pousar em um porta-aviões. 

5 – Good Morning, Vietnam!

O F-14 serviu em vários cenários de conflito. Irã, Iraque, Bósnia, Kosovo, Afeganistão,
etc. Mas o que muitos esquecem é que a primeira vez que o F-14 viu combate foi no final da Guerra do Vietnam.

Em abril de 1975, durante a Operação Vento Constante – como foi chamada a retirada emergencial dos norte-americanos que estavam no Vietnã do Sul – os Tomcats dos esquadrões VF-1 Wolfpack e VF-2 Bounty Hunters, embarcados no porta-aviões USS Enterprise (CVN-65), voaram patrulhas aéreas de combate (CAP) para cobrir a evacuação dos americanos.

Caças F-14A Tomcat dos esquadrões VF-1 Wolfpack e VF-2 Bounty Hunters a bordo do porta-aviões USS Enterprise.

No entanto, não houve nenhum enfretamento dos Tomcats contra outra aeronave no Vietnã. O primeiro abate do Tomcat com a Marinha dos EUA só veio em agosto de
1981, quando dois Su-22 Fitter líbios foram abatidos durante o primeiro incidente no
Golfo de Sidra.

Em janeiro de 1989 os Tomcats da Navy tiverem mais um encontro com a Força Aérea da Líbia. No Segundo Incidente no Golfo de Sidra, dois caças MiG-23 Flogger foram abatidos por um par de F-14A Tomcat do esquadrão VF-32 Fighting Swordsmen. Os Tomcats receberam apoio de um avião de alerta antecipado E-2 Hawkeye. 

6 – Jalil Zandi

A maior parte do saudosismo com o F-14 Tomcat é em relação aos seus mais de 30
anos de serviço com a Marinha dos EUA, operando a partir dos super porta-aviões e
ostentando diversas pinturas chamativas cheias de cores, como as dos esquadrões
Jolly Rogers e Tomcatters.

Mas quem realmente teve sucesso com o Tomcat foi a Força Aérea da República Islâmica do Irã (IRIAF), que adquiriu 80 aeronaves quando aquele país ainda tinha uma relação muito amistosa com os EUA.

Tripulantes de F-14 Tomcat da IIAF. Foto via Wikimedia.

Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), os F-14 “Alicats” – como foram apelidados pela fabricante na época da aquisição – abateram 130 aeronaves iraquianas, a maioria MiGs e Sukhois de origem soviética.

O maior Ás dentre todos os pilotos de Tomcat foi o General Brigadeiro Jalil Zandi. Ele combateu desde os primeiros dias da Guerra, e abateu um total de 11 aeronaves, sendo 8 abates confirmados e 3 tidos como prováveis.

Seu último voo na guerra foi em 1988, quando ele entrou em combate contra oito caças Mirage F1EQ da Força Aérea Iraquiana. O então Major Zandi teria abatido dois caças antes de ser atingido pelos iraquianos e ter que se retirar do combate. 

Jalil Zandi em frente a um F-14A Tomcat da Força Aérea Imperial do Irã, como a IRIAF era chamada antes da revolução de 1979. Foto via Wikimedia.

Ele voou até o território iraniano e ejetou. Jalil Zandi sobreviveu à Guerra, chegou ao posto de General Brigadeiro da Força Aérea e faleceu em 2001 em um acidente de carro com sua
esposa.

No Irã, o Tomcat ainda segue em serviço e foi modernizado para o padrão F-14AM. Todavia não há detalhes sobre os upgrades. 

7 – Samurai

Como foi explicado no tópico anterior, o F-14 só foi adquirido por dois países. Mas nos anos 70, o Japão quase adquiriu o último Gato da Grumman por causa de uma foto vazada de um exercício de avaliação realizado pela Marinha e Força Aérea dos EUA (USAF). 

A foto em questão mostrava um F-15 Eagle no HUD de um F-14 Tomcat, com a mira bem na “cabeça” do piloto. A imagem não mentia: aquele dogfight foi vencido pelo Tomcat.

A infame foto do F-14 Tomcat vs F-15 Eagle. Foto via Reddit.

O piloto do F-14 era Joe “Hoser” Satrapa, piloto da US Navy, instrutor da TOP GUN, e considerado por muitos um mestre do combate aéreo aproximado, conhecido por ter dito a seguinte frase quando foi questionado se queria voar o F-4 Phantom II ou o F-8 Crusader: “Quem diabos voaria um caça sem canhões?”

Mas voltando ao Japão… A foto do “abate” acabou vazando e foi matéria na famosa
revista Aviation Week, onde era afirmado que o Tomcat era superior ao F-15 que estava sendo adquirido pela Força Aérea de Autodefesa do Japão (JASDF) para substituir seus F-104 Starfighter.

A foto – que fazia parte da gravação do combate e que seria destruída assim que caísse nas mãos do pessoal da USAF – e o artigo quase estragaram a venda de bilhões de dólares, o que deixou diversos oficiais do alto escalão da USAF um tanto quanto irritados. Mas no fim, a JASDF seguiu com os Eagles que estão em serviço com aquela força até hoje.

8 – Meia asa

Apesar de ter sofrido vários acidentes, a maioria causados pelos constantes
apagamentos do P&W TF30, o Tomcat era um avião confiável e resistente.

Uma das vezes que essa resistência foi provada se deu em junho de 1991, quando o F-14A
matrícula BuNo 159832, do esquadrão VF-213 Black Lions, perdeu metade da asa direita após colidir com outro Tomcat, provavelmente em um treinamento de dogfight, sobre o Mar da China.

O F-14A BuNo 159832 sem metade da asa direita; Foto: Home of M.A.T.S.

O 832 fez um pouso de emergência na Singapura, enquanto a outra aeronave caiu e seus tripulantes foram resgatados.

9 – Brinquedo Caro

Todo avião complexo e avançado é caro para adquirir e manter, e com o Tomcat não
seria diferente. Em 1998, o custo unitário de um F-14 estava na casa dos US$38 milhões, o que hoje em dia seria, aproximadamente, US$60.3 milhões.

O grande Calcanhar de Aquiles do F-14 era a sua complexa manutenção: para cada hora de voo eram necessárias de 40 a 60 horas de cuidados com a aeronave. Grande parte desse custo vinha das suas asas de geometria variável, os duros pousos em porta-aviões e a corrosão constante por conta das operações no mar.

Os altíssimos custos e o fato de um dos maiores inimigos dos EUA contar com essa aeronave na sua frota foram dois grandes fatores que contribuíram para a aposentadoria do F-14 em 2006.

Substituto e substituído: um F-14B Tomcat voa com F/A-18E Super Hornet. Os caças pertencem ao esquadrão Pukin Dogs da Marinha dos EUA. Foto: John Braun/US Navy.

10 – Piloto Automático

Uma capacidade interessante do Tomcat era seu sistema de pouso automático em
porta-aviões (Automatic Carrier Landing System – ACLS). Tal sistema era basicamente um
piloto automático que pousava o avião sozinho em um porta-aviões. Entretanto, os pilotos tinha uma certa desconfiança em relação no ACLS, logo, seu uso não era muito comum.

11 – Auxiliando as tropas

No final de sua vida operacional, os F-14D Super Tomcat receberam uma pequena atualização no forma do ROVER (Remotely Operated Video Enhanced Receiver), um
sistema de transmissão de imagens em tempo real de uma aeronave para as tropas em
solo.

O upgrade, instalado nos Super Tomcats dos esquadrões VF-31 Tomcatters e VF-213 Black Lions, teve um custo de US$ 800 por aeronave, o que permitiu que os F-14D pudessem auxiliar ainda mais os soldados em combate no chão.

Com o ROVER, os militares em solo tinham quase a mesma visão que os tripulantes de Tomcat tinham lá do alto, o que melhorava muito a coordenação para ataques e suporte aéreo aproximado (CAS).

Um F-14D Super Tomcat do esquadrão VF-213 Black Lions. No detalhe a pequena antena do sistema ROVER. Foto: US Navy.

12 – Assento do carona

Muitos não sabem, mas quem voava no assento traseiro do F-14 não era um copiloto, mas sim um Radar Intercept Officer (RIO). Não havia nenhum controle da aeronave no assento traseiro.

O RIO era responsável por controlar e monitorar o poderoso radar Hughes AN/AWG-9 do Tomcat, além de fazer o disparo de mísseis e bombas, o que o piloto também poderia fazer se desejasse.

Apesar das tarefas do piloto e do RIO serem diferentes, os dois tinham que ter uma grande
sinergia afim de ter o maior desempenho possível nos controles do Tomcat. Então, o RIO não pilotava o avião, mas era absolutamente indispensável para o voo de combate daquela aeronave.

Os cockpits de um piloto e de um RIO de um F-14A Tomcat. Foto: Desconhecido.

13 – AMRAAM

Atualmente, o AIM-120 AMRAAM da Raytheon é um dos mais avançados mísseis ar-ar
disponíveis no mercado e o principal míssil guiado por radar ativo em uso ao redor do mundo. O AMRAAM é usado em diversos caças, como o Saab Gripen, F-22 Raptor, Eurofighter Typhoon, F-16 Fighting Falcon e vários outros.

O AIM-120 chegou a ser testado no F-14 Tomcat, mas nunca foi integrado ao caça. Os únicos mísseis ar-ar usados no Tomcat foram o AIM-7 Sparrow, AIM-9 Sidewinder e AIM-54
Phoenix, sendo que esse último só foi operado pelo próprio F-14. 

No Irã, ele também chegou a ser testado com o míssil russo Vympel R-27 (AA-10 Alamo) e com uma versão modificada do míssil antiaéreo MIM-23 Hawk.

Dois mísseis de manejo AIM-120 AMRAAM montados em um F-14 Tomcat. Foto via DeviantArt.

Os EUA também testaram o míssil anti-radar AGM-88 HARM e o míssil-anti-navio AGM-84 Harpoon no F-14 Tomcat. Mas, assim como o AMRAAM, a integração com esses materiais bélicos nunca veio.

Protótipo do F-14D Super Tomcat carregando bombas Mk.84 e mísseis anti-radar AGM-88 HARM. Foto via Reddit.

14 – Remanescentes

Em outubro de 2006 foi realizado o último voo de um F-14 Tomcat na Marinha dos EUA. Menos de um ano depois, a Marinha anunciou que iria destruir todos os Tomcats remanescentes para evitar o contrabando de peças para o Irã.

Os vídeos de tesouras mecânicas cortando os F-14 em pedaços partiu o coração dos aviadores, mecânicos, fabricantes e fãs do avião.

Felizmente ainda restam 11 F-14 Tomcats guardados no 309º Grupo de Manutenção e Regeneração Aeroespacial, o famoso cemitério de aviões militares no deserto do Arizona. Esses 11 Tomcats provavelmente serão restaurados e se juntarão aos outros 97 F-14 ainda preservados nos Estados Unidos.

Aí estão 14 fatos diferentes de um dos mais famosos e amados caças de todos os tempos. Apesar de já estar fora de serviço (no Ocidente), o Tomcat sempre será um dos mais importantes caças que já voaram por aqui. E quem sabe, no futuro, não volta a voar com um colecionador com bastante dinheiro.

Abaixo, uma galeria com imagens do magnífico Grumman F-14 Tomcat. 

Pesquisa: Gabriel Centeno, Heberth Thaylon e Luiz Castro. 

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